Concorrência entre unidades da mesma franquia: o que muda

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A concorrência entre unidades da mesma franquia, chamada de canibalização, só é real quando há sobreposição de público, e não por proximidade no mapa. Em compra de conveniência, o território encolhe a metros. No mercado autônomo em condomínio, o território é o próprio prédio, o que torna a saturação uma contagem de imóveis e transforma o ponto vizinho em oportunidade de expansão.

Você assina o contrato, abre a loja, ajusta a operação. Meses depois, chega a notícia de que a rede vai inaugurar outra unidade perto da sua. A reação é imediata: vão dividir o meu cliente.

Essa preocupação tem nome dentro do franchising. Canibalização é quando duas lojas da mesma marca passam a disputar o mesmo comprador em vez de disputar o concorrente. É como duas barracas de limonada na mesma calçada, com o mesmo preço e a mesma placa: ninguém vende o dobro, as duas vendem metade. A pergunta que interessa para entender a concorrência entre unidades é outra, e quase ninguém faz: em que condições essa segunda loja tira faturamento seu, e em que condições ela apenas atende gente que você nunca ia atender mesmo?

O que é canibalização, e quando ela é real

Canibalização não é qualquer loja nova por perto. É a loja nova que vende para quem já era seu. A diferença está em uma expressão: sobreposição de público.

Repare. Se a unidade nova abre em um bairro vizinho e atende moradores que nunca dirigiriam até você, o faturamento dela é novo, não saiu do seu caixa. Mas se ela abre no meio do caminho entre você e metade da sua clientela, o dinheiro mudou de lugar. A rede fatura igual. Você fatura menos.

É por isso que a análise séria nunca começa pela distância em quilômetros. Ela começa pelo comportamento de quem compra. Duas perguntas resolvem quase tudo: de onde vem o seu cliente hoje, e quanto ele está disposto a andar para comprar o que você vende?

Em produto de compra planejada, o comprador aceita percorrer distância e comparar opções antes de decidir. Em produto de conveniência, não. Ele compra no que estiver mais perto, e ponto. Quanto menor a distância que o cliente aceita percorrer para resolver a compra, menor precisa ser o território reservado a cada unidade para que duas lojas da mesma marca não se atrapalhem.

Por que a franqueadora também perde com isso

Existe uma leitura cínica que circula bastante: a franqueadora só quer abrir loja, porque cada abertura vira receita para ela. A leitura tem um erro de conta.

Royalties são um percentual do faturamento de cada unidade. Se duas lojas dividem o faturamento que uma sozinha teria, o total continua o mesmo. A rede não ganhou nada, e passou a ter duas operações para suportar, dois franqueados para treinar, dois estoques para acompanhar. Custo dobrado, receita igual.

Pior: o franqueado insatisfeito é o problema mais caro que uma rede pode ter. Ele reclama em fórum de franqueados, responde mal quando um candidato liga pedindo referência sobre a rede e costuma sair antes do fim do contrato. Uma rede que canibaliza os próprios pontos acaba destruindo a informação que mais atrai investidor novo, que é o franqueado antigo dizendo que valeu a pena.

Então o interesse é o mesmo dos dois lados. A franqueadora quer expandir. Ela só não quer expandir em cima de si mesma.

Os instrumentos que controlam a sobreposição

Redes maduras não resolvem isso na conversa. Resolvem em contrato e em método. São quatro instrumentos, e vale conhecer cada um pelo nome, porque eles aparecem no contrato exatamente assim.

InstrumentoO que faz
Estudo de viabilidade do pontoVerifica, antes de aprovar a unidade nova, se o ponto tem público próprio ou apenas divide o de quem já opera
Cláusula de territórioDefine a área em que a rede se compromete a não instalar outra unidade própria, por raio, bairro, CEP ou endereço
Direito de preferênciaDá ao franqueado atual a primeira chance de abrir o ponto vizinho, aproveitando quem já conhece a região
Padronização de preço e ofertaIguala tabela e mix entre unidades, tirando a competição do desconto e levando-a para a execução

O estudo de viabilidade tem um objetivo único: descobrir se aquele ponto tem público próprio ou se apenas divide o público de alguém que já está operando. A cláusula de território pode ser desenhada de várias formas, e o desenho importa mais do que o tamanho, ponto que a próxima seção detalha.

O direito de preferência faz sentido para os dois lados, porque quem já opera bem conhece a região e não precisa ser treinado do zero. E a padronização desloca a disputa do preço para a execução, que é onde a rede quer que ela esteja.

Exclusividade territorial: o que a cláusula garante mesmo

Aqui mora o mal-entendido mais caro do assunto. Exclusividade territorial é a cláusula pela qual a franqueadora se compromete a não abrir, nem autorizar terceiro a abrir, outra unidade da marca dentro de uma área definida. Repare no que ela cobre: unidades da mesma marca, só isso.

Ela não impede que uma marca concorrente do mesmo segmento abra na esquina no mês seguinte. Também não impede a venda pelo aplicativo da própria rede dentro da sua área de atuação, a menos que o contrato trate do canal digital com todas as letras. E não protege nada se a área estiver descrita de forma vaga.

Existe cláusula que promete exclusividade e, no parágrafo seguinte, permite exceções por decisão comercial da franqueadora. Existe contrato que fala em região sem dizer qual. Um raio de quinhentos metros em um bairro adensado pode valer menos que um raio de dois quilômetros em uma cidade pequena. Leia o desenho, não a palavra.

Três coisas precisam estar escritas para a cláusula ter valor prático: o limite geográfico exato, o prazo de validade e o que acontece se a rede descumprir. Sem a terceira, você tem uma promessa sem consequência. O detalhamento de como ler isso está em exclusividade territorial em contrato de franquia.

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O caso em que a loja vizinha é a sua segunda loja

Toda a discussão acima parte de um pressuposto silencioso: o de que abrir a segunda unidade custa outra entrada. Na maioria das redes, custa. Cada nova loja significa nova taxa de franquia, e é por isso que o franqueado enxerga a expansão da rede como ameaça. Ele não pode acompanhar o movimento.

Quando a taxa é única, a lógica inverte. Na Peggô Market, rede de franquias de minimercados autônomos, a taxa de franquia é de R$ 50.000,00 e dá direito à abertura ilimitada de unidades. O investimento inicial total parte de R$ 80 mil, somando taxa, estrutura da loja a partir de R$ 25.000,00 e primeiro estoque entre R$ 3.500,00 e R$ 10.000,00, o que dá cerca de R$ 78.500,00 no piso. A partir da segunda unidade, o franqueado paga estrutura e estoque. A entrada já está paga. A composição completa está aberta no plano de investimento.

Isso muda quem ocupa o ponto ao lado. Na rede, os franqueados multiunidade operam, em média, seis pontos, com faturamento anual acima de R$ 1.000.000,00, e o faturamento médio declarado por loja é de R$ 25.000,00 por mês, com margem bruta média entre 15% e 20%. São médias declaradas, não garantia de resultado. O que elas descrevem é um padrão de crescimento por adição de pontos, e não por disputa entre eles.

Repare no efeito prático. Se a próxima loja da região tende a ser sua, a pergunta deixa de ser como me defendo do vizinho. Passa a ser quantos condomínios da minha área ainda estão sem atendimento. Uma pergunta é defensiva. A outra é de expansão.

Isso não elimina a leitura do contrato. Continue exigindo por escrito como o território é definido e como novas unidades são aprovadas na sua área. Taxa única facilita a expansão do franqueado, e não substitui cláusula.

Por que o mercado autônomo redesenha o território

Um minimercado autônomo instalado dentro de um condomínio não disputa rua. Ele atende quem mora ali. O território não é um raio traçado no mapa: é o próprio prédio, com portaria, morador cadastrado e público conhecido. O funcionamento desse modelo está descrito em franquia em condomínios.

Isso torna a sobreposição quase aritmética. Duas lojas no mesmo condomínio não fazem sentido para ninguém. Já duas lojas instaladas em dois condomínios vizinhos praticamente não se tocam, porque o morador do prédio A não atravessa a rua, nem passa por duas portarias, para comprar um pacote de café no prédio B. Ele desce de elevador e compra no que está no próprio térreo.

Vale ver isso em um caso concreto: um franqueado já instalado descobre que o prédio da esquina quer uma loja e precisa decidir se aquilo compete ou complementa. O teste é simples e cabe em duas checagens. Primeira: alguém que mora no prédio da esquina hoje compra na loja dele? Se o acesso é restrito a morador cadastrado, a resposta é não, e o público é inteiramente novo. Segunda: o abastecimento e a reposição dos dois pontos cabem na mesma rota, no mesmo dia? Se cabem, o segundo ponto entra diluindo o custo de operação em vez de dobrá-lo. Duas respostas favoráveis descrevem complemento, não disputa.

Em compra de conveniência, a distância aceitável é curta. Aqui ela é de metros. Por isso a conta de saturação, que em outros segmentos é complexa, aqui vira contagem de imóveis. E a contagem tem folga: o Brasil tem mais de 10.000 condomínios com mercado autônomo instalado e cerca de 400.000 com potencial, o que coloca a penetração atual abaixo de 3%, segundo levantamento CEV/FGV.

Vale um cuidado. Prédio pequeno não sustenta operação por si só em qualquer configuração, e o critério de tamanho mínimo merece análise própria antes de decidir pela instalação de um segundo ponto próximo.

O que perguntar antes de assinar

Leve estas perguntas para a reunião e peça as respostas por escrito. Resposta oral não vale em disputa contratual.

  • Qual é o limite geográfico exato do meu território, descrito por endereço, raio ou lista de imóveis?
  • Por quanto tempo esse limite vale, e o que o renova?
  • Que exceções a franqueadora se reserva o direito de aplicar?
  • Se a rede abrir dentro da minha área, o que eu recebo em compensação?
  • Tenho direito de preferência sobre pontos novos vizinhos, e por quantos dias?
  • Vendas digitais entregues na minha área contam para mim?

Agora aplique isso ao ponto que você está avaliando. Abra o mapa e marque as unidades da rede já instaladas ao redor. Depois marque de onde viria o seu comprador. Se as duas marcações se encostam, você não tem um problema de contrato: tem um problema de ponto, e nenhuma cláusula resolve ponto errado.

Perguntas frequentes

Toda franquia oferece exclusividade territorial?

Não. É uma cláusula negociada, não uma obrigação legal. Há redes que oferecem área ampla, outras que oferecem apenas o endereço, e outras que não oferecem nada. Verifique no contrato e na Circular de Oferta de Franquia antes de assinar.

O que fazer se a rede abrir uma unidade dentro do meu território?

Primeiro, confira se a área realmente estava protegida no contrato. Se estava, notifique a franqueadora por escrito citando a cláusula e o descumprimento. A negociação costuma resolver antes de virar processo, e a documentação escrita é o que sustenta a sua posição.

Unidades da mesma rede podem cobrar preços diferentes?

Podem variar quando custos locais diferem, como aluguel e frete. O que a rede costuma fazer é sugerir tabela de preços e padronizar promoções, para que a diferença não vire disputa entre franqueados da mesma marca.

Abrir uma segunda unidade prejudica a minha primeira?

Depende inteiramente da sobreposição de público. Se as duas atendem grupos distintos, você soma faturamento e dilui custo fixo de gestão. Se atendem o mesmo grupo, você divide o que já tinha. No modelo de condomínio, dois prédios vizinhos costumam atender públicos separados.

Como sei se uma região já está saturada pela própria rede?

Peça o mapa de unidades ativas e em implantação da região, não apenas das inauguradas. Compare com o número de imóveis ou domicílios que ainda não são atendidos. Saturação aparece quando as áreas de influência começam a se encostar.

A taxa única elimina a necessidade de cláusula de território?

Não. Ela reduz o receio de canibalização, porque o ponto vizinho tende a ser seu, mas não substitui o contrato. Continue exigindo por escrito como o território é definido, como novas unidades são aprovadas na sua área e o que acontece com vendas digitais entregues ali.

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